quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Nessa minha postagem aproveito de duas perguntas feitas pela Denise para descrever um pouco da minha experiência nas aulas de PLE. Espero que seja útil a todos.

Primeira pergunta: Como você pode descrever as relações entre os alunos na sala de aula de PLE?

As oportunidades de assistirem as aulas de português para estrangeiro me levaram a algumas conclusões sobre a interação entre os alunos tanto nesse ambiente como em outros, nas aulas consideradas ‘convencionais’. Uso esse termo para qualificar as demais turmas aqui porque boa parte dos objetivos didáticos listados nos planos de aula visam à participação e a interação entre os alunos, coisa que, infelizmente, com a barreira e os hábitos culturais brasileiros é quase impossível de se conquistar. Talvez o grande problema desde dilema educacional esteja na distância que existe entre o conteúdo e a sua praticidade nos dias de quem o aprende. Estudar a respeito de células, na biologia, ou, até na graduação de Letras, as variantes fonéticas do Brasil, por exemplo, só farão sentido se, de alguma forma, o aluno se ver precisando dessas informações.
                Posso atestar que a necessidade de comunicação nas aulas de português para estrangeiro está muito baseado com essa importância para o cotidiano – dito acima. Mas logo ao concluir o que penso me vêm a seguinte dúvida: Até que ponto em uma sala de língua estrangeira em ambiente homoglota algo é de fato ensinado? Por que, me parece, muitas vezes que muito do que é dito ou explicado pelo professor a frente é apenas uma tentativa desse em organizar o que o mundo diz e provoca no estudante dessa língua alvo. O professor, por exemplo, ao ensinar adjetivos não está realmente interessado que o estudante o associe a outros ou indique sua tradução para o idioma de origem, mas sim, esse pretende esclarecer quais e em que ocasiões se devem usá-los. Talvez, o professor de português para estrangeiro seja mais um espelho que tenta refletir toda uma cultura vinculada por uma língua, como se, ao tentarmos ensinar algo estivéssemos mais dispostos a dizer sobre boas maneiras do que realmente acrescentar uma informação diferente ou dispersa do seu cotidiano.
                A primeira vista parece que o comportamento dos alunos nesse contexto é o ideal e que todos contribuem de forma homogênea com o máximo que lhes é permitido nas aulas. Na verdade, as coisas não são tão simples assim. Estamos falando aqui de diferentes culturas e diferentes hábitos educacionais. Cada país de alguma forma traz ao estudante uma forma de se portar dentro do ambiente escolar. Por exemplo, em uma das primeiras aulas que assiste da professora Denise, ela me contou que os alunos japoneses recebiam as folhas cedidas por ela com uma honra atípica para nós. Os alunos brasileiros estão adaptados a receberem sempre vários materiais extras de seus professores para ampliar seu conteúdo, agora, para o estudante japonese isso é um gesto especial de cuidado e atenção do professor com eles. Dessa forma, uma observação divida da professora comigo me fez perceber como que existia uma hierarquia muito mais rígida de poder desse contrato social, entre aluno e professor, no Japão do que no Brasil. E, assim, eu pude compreender porque os estudantes japoneses usavam termos como  ‘né?; Acha que estou certo?; Bem, eu penso que...” com muito mais frequência do que os outros alunos. Na verdade, eles queriam, a todo momento, transparecer esse valor cultural inserido neles, e por mais que estivessem mostrando suas opiniões nas aulas a última e a válida palavra sempre seria a do professor, concordando ou discordando do que haviam dito, como aprendido em seus países de origem.
                O exemplo citado acima é apenas um entre muitos dessa minha experiência como ouvinte que com certeza ilustraria a forma discreta como que uma simples palavra ou um gesto diz tanto sobre a identidade de alguém. A partir dessas observações pessoais eu compreendi porque era tão necessário estudar a língua por um viés mais social e abracei, como todos os meus companheiros de pesquisa, a sociolinguística unida a Análise do Discurso como a Bruna muito bem explicou em sua contribuição abaixo.

                Segunda pergunta: Dá para dizer que o trabalho como professor com um só aluno é diferente do trabalho com um grupo? Em que constitui essa diferença?

                Nesse último semestre tive a maravilhosa experiência de aprender um pouco como tutor de um aluno americano. Referirei a ele usando do pseudônimo Rhyan. Rhyan era um aluno de uns quarenta e poucos anos, vinha dos Estados Unidos e fazia alguma engenharia, não me lembro ao certo qual. Mas a característica mais marcante em Rhyan era que ele estava realmente disposto a aprender português e isso foi todo o diferencial que explicou o porquê que, em apenas seis meses, ele saiu do Brasil tendo um domínio básico da nossa língua que, para muitos brasileiros, já é difícil.
                Rhyan foi um grande desafio para mim. Na maior parte das aulas eu me via tanto estrangeiro quanto ele, deparávamos com algumas dúvidas que deixava-me muitas vezes envergonhado por não saber respondê-las e então eu pensava: será que eu sou uma pessoa competente para apresentá-lo nossa língua? Muitas vezes duvidei que pudesse ajudá-lo, perguntando-me como eu era capaz de falar português tão bem se não conseguia esclarecer uma dúvida tão simples sobre nossa língua? Foi então que entende a diferença entre proficiência linguística e conhecimento lingüístico. De uma forma, ao falarmos uma língua estamos sendo proficientes nela, isto é, através dela, conseguimos comunicar um com os outros e expressar vontades, desinteresses, necessidades; mas isso, não quer dizer que tenhamos conhecimento linguístico. Entender isso foi difícil e me custou um árduo trabalho de voltar a consultar a gramática para sanar minhas questões e meus ERROS. Duvido, sinceramente, que esse trabalho algum dia acabe e encaro isso, hoje, com felicidade. Ir a gramática e tirar uma dúvida é atestar para mim mesmo que a língua evolui, assim como nossos pensamentos, e precisa ser estudada e revisada sempre. Foi então que a gramática deixou de ser um bloco chato e enfadonho de regras para se tornar um manual de descobertas e questionamentos a serem explorados e porque não, MUDADOS.
                Rhyan me mostrou como trabalhar com ele era diferente do convivio em uma sala com mais alunos. No nosso contato semanal ele se mostrava muito mais disposto a falar, a perguntar, a questionar a mim do que nas salas normais. Entendi que quando éramos nós dois as ‘barreiras de interesses’ eram muito mais perceptíveis do que em uma sala comum. Ou seja, quando o assunto não era conveniente em nossas reuniões, um silêncio ou uma mudança proposital indicava que deveríamos evitar aquele tema, já, em uma sala, muitas vezes, as reações não são tão abertas e perceptivas assim.
                O professor enfrenta e trabalha com diferentes problemas nesses dois tipos de sala de aula. Em aulas particulares a proximidade e o contato rotineiro acaba deixando a relação entre professor e aluno um pouco conturbada e muitas vezes é preciso lembrar a ambos em cena que aquele encontro trata-se de uma troca de informações diferente de uma reunião em festividades.  O professor de uma aula com mais alunos não compartilha muito desse problema, contudo, ele tem que enfrentar na maior parte das vezes o limite indecifrável da indiscrição. Até quando uma informação pedida ou cedida por ele pode expor um dos alunos a uma situação constrangedora em frente aos outros? Até quando uma informação pode alimentar conflitos étnicos e culturais? Afinal, todos ali são estrangeiros. Em ambas as salas a cautela é uma habilidade complicada de se lidar.
                Em uma sala com vários alunos, a vergonha muitas vezes esconde as dúvidas que acabam vindo à tona nos exames e nas avaliações finais. O professor não é tão exigido quanto nas aulas particulares que trata-se de um constante ‘ping-pong’ da fala, por outro lado, o professor de salas com mais alunos deve ser mais perceptível para notar as dificuldades dos seus diversos aprendizes.
                A verdade é que para se ter um bom trabalho um professor de PLE deve sempre apresentar um conteúdo atualizado que atenda tanto aos interesses de seus alunos quanto as necessidades que eles tem de aprender e que, em boa parte das vezes, nem eles sabem possuí-las. São diferentes ambientes de contato nessa relação professor-aluno, mas que em si prioriza os meus valores. O que fará a diferença é o interesse de ambos (alunos e professor) em aprenderem e dividirem suas experiências linguísticas juntos.


Lucas Rezende Almeida

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Sobre algumas questões em ensino e aprendizagem de PLE

Quem fala para quem? Sobre o quê? De que maneira? Em que lugar? Em que momento?... Perguntas como essas nos ajudam a nortear a pesquisa proposta pelo projeto “Atribuição de identidades na aula de conversação em PLE”. Nosso objetivo maior é investigar como se co-constroem e são negociadas as identidades através da fala-em-interação de participantes da conversação (professor e alunos); e como essas relações identitárias interferem no processo de ensino e aprendizagem em contexto específico da aula de PLE (Português como Língua Estrangeira).
    
Com esse propósito, temos dialogado com diversos textos teóricos relacionados, direta ou indiretamente à Sociolinguística Interacional, campo cujo foco empírico é analisar o significado do discurso como ação social humana construída a partir da interação. Assim, a concepção de linguagem é dada como uma ação social co-construída pela interação discursiva dos participantes em um determinado cenário comunicativo. Para isso, os autores dessa linha desenvolvem estudos da comunicação humana sob perspectivas linguísticas, antropológicas e sociológicas, abrangendo várias áreas das Ciências Humanas e Sociais (Linguística, Sociologia, Educação, etc ).

Escolhemos como modelo a metodologia proposta pela Análise de Conversação Etnometodológica (ACE), elaborada predominantemente pelo teórico Harold Garfinkel, por ser a que melhor atende aos propósitos de nossa pesquisa. Esse método enfoca a observação e o estudo dos usos da linguagem e seus elementos articulados na fala-em-interação face a face da conversa como ações sociais humanas. Sob essa perspectiva, os analistas devem registrar as conversações como materiais concretos (gravações, transcrições, etc) e examinar as elocuções detalhadamente, para que se produza uma análise ética. Principalmente, ao se tratar de uma pesquisa êmica, como a nossa, na qual quem analisa é também participante das aulas investigadas.

Ao frequentarmos as aulas ministradas pela orientadora deste projeto, Denise Weiss, tem sido possível observar de perto questões pedagógicas relacionadas aos padrões de comportamento particulares aos alunos da disciplina PLE. Nesse contexto, as maneiras pelas quais os participantes se inter-relacionam (estruturas de participação como falar, ouvir, conduzir, ser conduzido, etc.) variam conforme suas respectivas culturas. E, uma vez que o processo de aprendizagem de cada aluno está intrinsecamente ligado a aspectos próprios de sua cultura, é fundamental que até a escolha ou a elaboração de qualquer material a ser trabalhado em aulas para estrangeiros seja feita com bastante cautela pelo professor, mediador do conhecimento da língua portuguesa. Quando se trata de uma turma composta por diferentes nacionalidades, essa diversidade cultural pode ser tanto positiva quanto negativa... Positiva porque o que é diferente e novo pode despertar, facilmente, o interesse no outro. E negativa porque, se não equilibrada e bem conduzida pela “inter-ação” do professor, a diferença pode provocar fortes choques culturais (através de falsos estereótipos, por exemplo) e dificultar o aprendizado da língua.

Por último, fizemos algumas leituras ligadas à Análise do Discurso e suas pontes com o tema identidade na língua. Entendemos que para identidade há várias concepções, mas neste ponto de vista específico pode ser entendida como resultado de atos de criação lingüística, construída em contexto social e cultural. Ou seja, nas aulas de PLE, a ideia de relações identitárias se dá como resultado de atos da linguagem permeados por diferenças sociais e culturais manifestadas na interação alunos-professor. Assim, além de um evento interacional no qual os participantes realizam ações sociais ao comunicar, a aula de PLE é também um cenário multicultural em que professor e alunos de diversos países assumem papéis sociais e negociam diferentes identidades.

O projeto prossegue no próximo semestre (1/2011) e, com ele, o aprofundamento de análise das conversações já selecionadas, outras leituras e atividades.

 Feitas as devidas apresentações do projeto e seus desdobramentos, posts mais voltados a debates estão a caminho. PARTICIPEM, leitores!!!

                                               
                                                                                                                                Bruna Crespo