Transcrição
Aula do dia 12/08/05
5’00”
- Profa. Daniela: Bom. Eu e ele resolvemos fazer uma coisa de artistas, já que tem câmera hoje. Nós vamos ler este diálogo agora com a entonação necessária. É um típico texto de um autor brasileiro, certo? Funciona como uma crônica... entendem crônica? São textos curtos, que falam de fatos do cotidiano, do todo dia das pessoas, da sociedade, essas coisas.
- João: Tipo short story.
- Profa. Daniela: Exatamente, tipo short story .
- João: Chronicle.
- Profa. Daniela: Chronicle. (escreve alguma coisa no quadro) Pronto. Bom, vamos lá:
Nessa leitura, revezam-se nos papéis a professora e o aluno brasileiro Igor
– Ana Paula?!
– Jorge Albeeerto?!
– Escuta... eu...
– Jorge Alberto, esse é o Serge, meu namorado. Serge, Jorge Alberto, meu ex-marido.
– Prazer, Sérgio! Ana, eu...
– Serge.
– Hein? O nome dele é Sérgio... O nome dele não é Sérgio? É Serge?
– O nome dele não é Sérgio, é Serge.
Nós [incompreensível]. 6’36”.
– Ah, escuta. Eu posso sentar?
– Claro!
– Você parece ótima!
– Eu estou ótima! Nunca estive tão bem!
– Pois é, Ana. Mas, sei lá. Você não devia estar assim tão bem. Desculpa, viu, Serge. Ele fala português?
– Ele é de Canoas.
– Ah, desculpa, viu, Serge. Não tem nada a ver com você, mas, puxa, Ana! Nós nos separamos há o quê? Três semanas? E você está aí, radiante?
– Você queria que eu estivesse o quê? Arrasada?
– Não! Podia estar bem. Mas não assim, em público.
– Aaah! Você acha que eu não devia sair de casa?
– Olha, depois que o meu pai morreu, minha mãe levou dois anos pra aparecer na janela, entendeu? Não sair de casa! Aparecer na janela!
– Mas Jorge Alberto! Você não morreeeu! Eu não sou viúva! Nós só nos separamos! A vida continuuua, meu queriiido. Serge, não repara!
– Mas aqui... mas aqui Ana? Logo aqui? Lembra a última vez que nós dançamos juntos? Foi aqui!
– Lembro muito bem! Aliás, foi na noite em que nós decidimos nos separar!
– Pois então! Isto não significa nada pra você? Eu não quero bancar o antigão e tal, Ana. Mas algumas coisas devem ser respeitadas! Alguns valores ainda resistem, pombas!
– Mas, vem cá!? Você também não tá aqui?!
– Sim! Mas olha a minha cara! Eu pareço radiante? Vim aqui curtir fossa. Estou sozinho. Não estou me divertindo. Homem pode sofrer em bar, mulher não!
– Mas eu não tô sofrendo! Estou ótima!
– Exatamente! Isto tá pegando mal pra mim! Você não podia fazer isso comigo, Aninha!
– Eu não acredito!
– Deixa eu perguntar pro Serge. Aqui...
– Deixa o Serge fora disso!
– Não, o Serge é homem vai me dar razão. Serge, suponhamos o seguinte...
- Profa. Daniela: Entende? Foi fácil entender a situação?
- João: Sim.
- Profa. Daniela: Bom, então, vamos começar esse texto... esse trecho é... O que que vocês acham desta situação? É uma situação normal, é comum?
- Brígida: Não.
- Profa. Daniela: O que você acha?
- Brígida: ...
- João: Eu acho que isto deveria acontecer com bastante freqüência aqui no Brasil.
- Sandro: Também acho.
- Profa. Daniela: Por quê?
A partir da transcrição citada, será possível avaliar, paulatinamente, as atitudes da aluna Brígida, no contexto de sala de aula de Português como língua estrangeira. Um outro objetivo é analisar como ocorre o reforço de sua auto-percepção em relação aos outros colegas de classe e como eles contribuem para a afirmação identitária da estudante em suas intervenções.
No início da aula, a professora expressa uma justificativa para o equipamento presente no recinto, utilizado na gravação audiovisual das cenas interacionais, com o objetivo de os deixarem familiarizados com os recursos tecnológicos. Nota-se, então, que a professora Daniela toma a atenção da classe, iniciando sua fala como concorrente do turno e com uma justificativa. Observa-se, logo: “Bom. Eu e ele resolvemos fazer uma coisa de artistas, já que tem câmera hoje”. Com isso, os alunos já ficariam cientes de que haverá algo distinto do usual naquele ambiente. Nesse momento, verifica-se que a locutora possui a turma como ouvintes e, ainda, explica a atividade com que principiará a aula, baseada no texto “Noites de Bogart”. Ainda, ela compara o objeto da leitura a uma crônica e explica, então, que irão “ler esse diálogo com a entonação necessária”. Após essa explicação, João toma o turno da mestra a fim de verificar se se tratava de short story.
Em seguida, ela segue o pensamento do aluno e confirma: “Exatamente, tipo short story. João se lembra, então, do vocábulo da língua inglesa chronicle, por talvez não estar seguro para falar isso em Português. Ele lança mão da língua inglesa possivelmente motivado pela estratégia da professora de comparar, a partir da confirmação “Tipo short story” ao material proposto para a atividade, embora isso tivesse sido introduzido por ele, num momento anterior. Após, a professora Daniela dá indícios de querer encerrar a discussão acerca da delimitação estrutural do texto e percebe que, pela resposta de João, não será mais necessário dedicar mais tempo a essa exposição inicial. Ela confirma oralmente a fala de João e utiliza recursos didáticos – quadro e giz – para escrever a terminologia “chronicle” na lousa.
Adiante, inicia-se a leitura do texto pelo aluno brasileiro Igor e pela professora:
– Ana Paula?!
– Jorge Albeeerto?!
– Escuta... eu...
– Jorge Alberto, esse é o Serge, meu namorado. Serge, Jorge Alberto, meu ex-marido.
– Prazer, Sérgio! Ana, eu...
– Serge.
– Hein? O nome dele é Sérgio... O nome dele não é Sérgio? É Serge?
– O nome dele não é Sérgio, é Serge.
Nós [incompreensível]. 6’36”.
– Ah, escuta. Eu posso sentar?
– Claro!
– Você parece ótima!
– Eu estou ótima! Nunca estive tão bem!
– Pois é, Ana. Mas, sei lá. Você não devia estar assim tão bem. Desculpa, viu, Serge. Ele fala português?
– Ele é de Canoas.
– Ah, desculpa, viu, Serge. Não tem nada a ver com você, mas, puxa, Ana! Nós nos separamos há o quê? Três semanas? E você está aí, radiante?
– Você queria que eu estivesse o quê? Arrasada?
– Não! Podia estar bem. Mas não assim, em público.
– Aaah! Você acha que eu não devia sair de casa?
– Olha, depois que o meu pai morreu, minha mãe levou dois anos pra aparecer na janela, entendeu? Não sair de casa! Aparecer na janela!
– Mas Jorge Alberto! Você não morreeeu! Eu não sou viúva! Nós só nos separamos! A vida continuuua, meu queriiido. Serge, não repara!
– Mas aqui... mas aqui Ana? Logo aqui? Lembra a última vez que nós dançamos juntos? Foi aqui!
– Lembro muito bem! Aliás, foi na noite em que nós decidimos nos separar!
– Pois então! Isto não significa nada pra você? Eu não quero bancar o antigão e tal, Ana. Mas algumas coisas devem ser respeitadas! Alguns valores ainda resistem, pombas!
– Mas, vem cá!? Você também não tá aqui?!
– Sim! Mas olha a minha cara! Eu pareço radiante? Vim aqui curtir fossa. Estou sozinho. Não estou me divertindo. Homem pode sofrer em bar, mulher não!
– Mas eu não tô sofrendo! Estou ótima!
– Exatamente! Isto tá pegando mal pra mim! Você não podia fazer isso comigo, Aninha!
– Eu não acredito!
– Deixa eu perguntar pro Serge. Aqui...
– Deixa o Serge fora disso!
– Não, o Serge é homem vai me dar razão. Serge, suponhamos o seguinte...
Após a leitura do primeiro trecho do texto, como uma tentativa de checar o entendimento até aquele momento da leitura, a professora questiona se foi “fácil entender a situação”. Essa pergunta demonstra o interesse dela no exame do nível de conhecimento lingüístico dos alunos em relação ao texto e toma isso como suporte para iniciar uma discussão do contexto situacional até então lido.
A partir do questionamento da professora é que se nota a primeira intervenção da integrante que é o foco dessa análise: ao serem indagados se a situação do diálogo correspondia a um contexto corriqueiro, comum, Brígida é a primeira a notar que não se trataria de algo “normal”, respondendo às questões feitas pela professora, não de forma direta. Os interlocutores da docente são, na cena tratada, o grupo de alunos presentes na sala de aula. Isso implica a possibilidade de quaisquer integrantes da cena poderem responder ao que foi indagado; adiante, Brígida, pro-ativamente, confirma que a situação relacionada não é algo que se enquadre dentro do que é comum.
O fato de ela ser a primeira a responder já traçaria uma característica importante como sustentadora que dá início à interação com a professora. Nota-se, também, que a professora, ao perceber a finalização do turno de Brígida, após responder ao questionamento sobre a normalidade da situação tratada, no texto, pergunta o que ela acha da situação. Nesse momento, é gerada uma expectativa de resposta, pois a mestra Daniela seleciona a participante da aula a fim de que tal discente esboce um ponto de vista.
Notadamente, a seleção realizada por Daniela não é correspondida. Contudo, a professora presencia, em seguida, a auto-seleção do estudante João em relação ao questionamento feito.
CONTINUA>