Apresentarei a seguir fichamentos de três artigos considerados representativos (A situação negligenciada de Erving Goffman, Algumas fontes de variabilidade cultural na ordenação da fala de Susan Urmston Philips e Convenções de contextualização de John J. Gumperz) que servirão de consulta para o grupo de estudo de Iniciação Científica orientado pela professora Denise Weiss. Os textos foram extraídos da obra “Sociolinguística Interacional”, organizada por Branca Telles Ribeiro e Pedro M. Garcez.
Apresentação
Uma análise da organização do discurso e da interação social demonstra a complexidade inerente a qualquer tipo de encontro face a face, pois, na condição de participantes, estamos a todo momento introduzindo ou sustentando mensagens que organizam o encontro social, mensagens essas que orientam a conduta dos participantes e atribuem significado à atividade em desenvolvimento ao mesmo tempo que ratificam ou contestam os significados atribuídos pelos demais participantes. Considerando-se a natureza sutil e indireta dessas mensagens, a posição do interlocutor – segundo Goffman – é a de quem procura entender o significado do discurso a partir do contexto interacional, indagando sempre onde se situa o contexto de fala, “onde está a realidade de uma dada interação?”, “o que está acontecendo?”, “por que isso agora?” p. 7
Nessa abordagem do discurso, tanto o falante como o ouvinte têm papéis ativos na elaboração da mensagem e na definição de “o que está se passando aqui e agora”. Não há, portanto, significado que não seja situado. A noção de contexto ganha relevância, passando a ser entendida como criação conjunta de todos os participantes presentes ao encontro e emergente a cada novo instante interacional. Os interagentes levam em consideração não somente os dados contextuais relativamente mais estáveis sobre participantes (quem fala para quem), referência (sobre o quê), espaço (em que lugar) e tempo (em que momento), mas consideram sobretudo a maneira como cada um dos presentes sinaliza e sustenta o contexto interacional em curso. p. 8
Artigo 1: A situação negligenciada ( The Neglected Situation) – Erving Goffman
O autor do artigo expõe duas correntes de análise contextual, uma denominada correlacional e a outra, indicativa, apontando a negligência existente na percepção e avaliação da situação social. A meu ver, este artigo auxilia demasiadamente o estabelecimento de relações entre conceitos e práticas no que tange às apreciações das relações face a face, em um encontro entre alunos, assistentes e professor, na sala de PLE.
A situação negligenciada
É quase impossível citar uma variável social que ao surgir não produza um efeito sistemático sobre o comportamento lingüístico: idade, sexo, classe, casta, país de origem, geração, região, escolaridade; pressuposições cognitivo-culturais; bilingüismo, e assim por diante. A cada ano, novos determinantes sociais do comportamento lingüístico são apresentados. A cada ano, também, novas variáveis psicológicas também são associadas à fala. Paralela a essa motivação correlacional para que se incluam sempre novos atributos sociais como determinantes do comportamento lingüístico, tem havido uma outra motivação, tão forte quanto a primeira, de ampliar a gama de propriedades identificáveis no próprio comportamento lingüístico, expansões essas que têm relações variadas com a já clássica estruturação fonética, fonêmica, morfêmica e sintática da linguagem. Assim foram isoladas novas características semânticas, expressivas, paralinguísticas e cinéticas do comportamento que envolve a fala, que nos fornecem uma nova leva de indicadores passíveis de serem utilizados em alguma correlação. Em certos pontos, esse dois modos de visão – correlacional e indicativo – parecem desagradavelmente próximos um do outro, nos forçando a examinar o terreno que os separa – e isso por sua vez pode nos levar a perceber que algo importante tem sido negligenciado. p. 14
Um estudioso interessado nas propriedades da fala pode se ver obrigado a olhar para o cenário físico no qual o falante executa seus gestos simplesmente porque não se pode descrever completamente um gesto sem fazer referência ao ambiente extracorpóreo no qual ele ocorre. E alguém interessado nos correlatos lingüísticos da estrutura social pode acabar descobrindo que precisa se voltar para a ocasião social toda vez que um indivíduo possuidor de certos atributos sociais se fizer presente diante de outros. Ambos os estudiosos, precisam, portanto, olhar para o que chamamos vagamente de situação social. E é isso que tem sido negligenciado. p. 16
Então, enfrentemos aquilo sobre o que até aqui fomos indiretos: as situações sociais. Eu definiria uma situação social como um ambiente que proporciona possibilidades mútuas de monitoramento, qualquer lugar em que um indivíduo se encontra acessível aos sentidos nus de todos os outros que estão ‘presentes’, e para quem os outros indivíduos são acessíveis de forma semelhante. De acordo com essa definição, uma situação social emerge a qualquer momento em que dois ou mais indivíduos se encontram na presença imediata um do outro e dura até que a penúltima pessoa tenha se retirado. Pode-se fazer referência coletivamente às pessoas em uma dada situação como um agrupamento, mesmo que os participantes de um agrupamento pareçam estar divididos, calados e distantes, ou somente momentaneamente presentes. As regras culturais estabelecem como os indivíduos devem se conduzir em virtude de estarem em um agrupamento, e essas regras de convivência, quando seguidas, organizam socialmente o comportamento daqueles presentes à situação. p. 17
A possibilidade de duas ou mais pessoas ratificarem uma (s) à (s) outra (s) vem da existência de certas combinações sociais, de todos ou de alguns dos presentes, que pressupõem uma maior ou mais extensa estruturação de conduta. Esses empreendimentos em orientação conjunta podem ser chamados de encontros, ou comprometimento de face. Há regras claras para o início e o término de encontros, para a entrada e a saída de certos participantes em particular, para as exigências que um encontro pode requerer de seus sustendadores e para o decoro de espaço e som que deve ser observado em função dos participantes excluídos, mas presentes à situação. p. 18
A fala é socialmente organizada, não apenas em termos de quem fala para quem em que língua, mas também como um pequeno sistema de ações face a face que são mutuamente ratificadas e ritualmente governadas, em suma, um encontro social. p. 19
Devemos apresentar as elocuções com um revestimento de gestos funcionais – gestos que propiciam estados de fala, gestos que policiam esses estados de fala e mantêm esses pequenos sistemas de atividade em funcionamento. p. 19
Em um certo nível de análise, portanto, o estudo de afirmações que podem ser grafadas e o estudo da fala são coisas diferentes. Em um nível de análise, o estudo de turnos de fala e de coisas ditas durante o turno de alguém são parte do estudo da interação face a face. A interação face a face tem seus próprios regulamentos; tem seus próprios processos e sua própria estrutura, e eles não parecem ser de natureza intrinsecamente linguística, mesmo que frequentemente expressos por um meio linguístico. p. 20
Artigo 2: Algumas fontes de variabilidade cultural na ordenação da fala – Susan Urmston Philips
Começarei a comparação entre os sistemas índio e anglo-americano de ordenação da fala com uma discussão do que já se sabe sobre a interação anglo-americana falada. Recentemente, Sacks, Jefferson e Schegloff (1973) propuseram vários “fatos” que, segundo eles, se aplicam à “conversa”. Para esse autores, a conversa é somente um dos vários “sistemas de trocas de fala”. Embora não definam claramente qual a diferença entre a conversa e outros sistemas de trocas de fala, eles estabelecem algumas características da conversa. Entre elas, destaco as seguintes (Sacks, Jefferson e Schegloff, 1973: 6):
(1) A troca de falante ocorre repetidamente, ou, no mínimo, uma vez.
(2) Na grande maioria dos casos, fala um de cada vez.
(3) Ocorrências de mais de um falante por vez são comuns, mas breves.
(4) São comuns as transições de um turno para outro sem que haja intervalo ou sobreposição. Juntamente com as transições caracterizadas por intervalos curtos ou sobreposições breves, essas constituem a grande maioria das transições. ...
(12) Usam-se, é claro, técnicas de atribuição de turno. Um falante em posse da palavra pode escolher o próximo falante (como, por exemplo, quando um falante em posse da palavra dirige uma pergunta a uma outra parte); as partes podem se auto-selecionar ao começar a falar.
(13) Empregam-se várias unidades de construção de turno para a produção da fala que ocupa um turno. Os turnos podem ser do tamanho de uma palavra, ou do tamanho de uma frase. p. 24 e p. 25
As gravações não captam a contribuição do ouvinte para a organização da interação; e uma análise seqüencial falante por falante não permite que se considere, analiticamente, o ouvinte.
A fim de analisar modelos de interação que levam em conta o falante e o ouvinte, é necessário ver o trabalho de quem estuda a comunicação não-verbal, de quem examina minuciosamente filmagens e videoteipes de conversas.
É considerável a quantidade de movimentos do corpo dos falantes e dos ouvintes durante a fala anglo-americana. Há mudanças de “alinhamento”, ou seja, mudanças na direção para a qual a frente do corpo está voltada em relação à frente dos corpos dos outros (Scheflen, 1964). De forma semelhante, durante a interação, há mudanças no alinhamento da cabeça/do rosto em relação aos outros, sendo que a cabeça frequentemente se movimenta com o corpo, e algumas vezes ela se movimenta sozinha. p. 25 e p. 26
Os comportamentos de falantes e ouvintes se diferenciam um do outro principalmente pelo fato de o falante se comunicar tanto verbal como não-verbalmente, enquanto o ouvinte se comunica somente de forma não-verbal.
Os falantes também utilizam tipos de comportamento não-verbal diretamente relacionados à fala e que não se observam nos ouvintes (Birdwhistell, 1970). As cabeças dos falantes balançam levemente, no ritmo do discurso; eles gesticulam com as mãos e os braços de maneira a qualificar e pontuar a fala. Duncan (1972, 1974) sugere que, em parte, é a cessação desses movimentos não verbais peculiares ao falante que demonstra que ele está passando a palavra a outrem. P. 26
A continuar
Artigo 3: Convenções de contextualização - John J. Gumperz
A diversidade linguística funciona como um recurso comunicativo nas interações verbais do dia-a-dia no sentido de que, numa conversa, os interlocutores – para categorizar eventos, inferir intenções e apreender expectativas sobre o que poderá ocorrer em seguida – se baseiam em convencimentos e estereótipos relativos às diferentes maneiras de falar. Esse conjunto de informações internalizadas é crucial para a manutenção do envolvimento conversacional e para o uso eficaz de estratégias persuasivas. p. 150
Entenderemos os métodos linguísticos tradicionais, de testagem criteriosa e recursiva de hipóteses com informantes representativos, à análise dos processos interativos pelos quais os participantes negociam as interpretações.
Inicialmente, abordaremos o problema do valor simbólico de uma série de variáveis linguísticas, com o intuito de descobrir como elas contribuem para a interpretação do que está sendo feito na interação comunicativa. Partimos do pressuposto de que uma elocução pode ser compreendida de várias maneiras e que as pessoas decidem interpretar uma determinada elocução com base nas suas definições do que está acontecendo no momento da interação. (...) As pessoas definem a interação em termos de um enquadre ou esquema identificável e familiar (Goffman, 1974). p. 151
(...) O tipo de atividade não determina o significado, mas simplesmente restringe as interpretações, canalizando as inferências de forma a ressaltar ou tornar relevantes certos aspectos do conhecimento prévio e diminuir a importância de outros. p. 152
Pistas de contextualização:
(...) Essa canalização de interpretação se realiza por implicaturas conversacionais baseadas em expectativas convencionalizadas de co-ocorrência entre conteúdo e estilo de superfície. Isso significa que é através de constelações de traços presentes na estrutura de superfície das mensagens que os falantes sinalizam e os ouvintes interpretam qual é a atividade que está correndo, como o conteúdo semântico deve ser entendido e como cada oração se relaciona ao que a precede ou sucede.
(...)
Daniel A. Oliveira
Bom, Daniel!!! Quem acrescenta mais alguma coisa? Vamos lá, pessoal!
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