Quem fala para quem? Sobre o quê? De que maneira? Em que lugar? Em que momento?... Perguntas como essas nos ajudam a nortear a pesquisa proposta pelo projeto “Atribuição de identidades na aula de conversação em PLE”. Nosso objetivo maior é investigar como se co-constroem e são negociadas as identidades através da fala-em-interação de participantes da conversação (professor e alunos); e como essas relações identitárias interferem no processo de ensino e aprendizagem em contexto específico da aula de PLE (Português como Língua Estrangeira).
Com esse propósito, temos dialogado com diversos textos teóricos relacionados, direta ou indiretamente à Sociolinguística Interacional, campo cujo foco empírico é analisar o significado do discurso como ação social humana construída a partir da interação. Assim, a concepção de linguagem é dada como uma ação social co-construída pela interação discursiva dos participantes em um determinado cenário comunicativo. Para isso, os autores dessa linha desenvolvem estudos da comunicação humana sob perspectivas linguísticas, antropológicas e sociológicas, abrangendo várias áreas das Ciências Humanas e Sociais (Linguística, Sociologia, Educação, etc ).
Escolhemos como modelo a metodologia proposta pela Análise de Conversação Etnometodológica (ACE), elaborada predominantemente pelo teórico Harold Garfinkel, por ser a que melhor atende aos propósitos de nossa pesquisa. Esse método enfoca a observação e o estudo dos usos da linguagem e seus elementos articulados na fala-em-interação face a face da conversa como ações sociais humanas. Sob essa perspectiva, os analistas devem registrar as conversações como materiais concretos (gravações, transcrições, etc) e examinar as elocuções detalhadamente, para que se produza uma análise ética. Principalmente, ao se tratar de uma pesquisa êmica, como a nossa, na qual quem analisa é também participante das aulas investigadas.
Ao frequentarmos as aulas ministradas pela orientadora deste projeto, Denise Weiss, tem sido possível observar de perto questões pedagógicas relacionadas aos padrões de comportamento particulares aos alunos da disciplina PLE. Nesse contexto, as maneiras pelas quais os participantes se inter-relacionam (estruturas de participação como falar, ouvir, conduzir, ser conduzido, etc.) variam conforme suas respectivas culturas. E, uma vez que o processo de aprendizagem de cada aluno está intrinsecamente ligado a aspectos próprios de sua cultura, é fundamental que até a escolha ou a elaboração de qualquer material a ser trabalhado em aulas para estrangeiros seja feita com bastante cautela pelo professor, mediador do conhecimento da língua portuguesa. Quando se trata de uma turma composta por diferentes nacionalidades, essa diversidade cultural pode ser tanto positiva quanto negativa... Positiva porque o que é diferente e novo pode despertar, facilmente, o interesse no outro. E negativa porque, se não equilibrada e bem conduzida pela “inter-ação” do professor, a diferença pode provocar fortes choques culturais (através de falsos estereótipos, por exemplo) e dificultar o aprendizado da língua.
Por último, fizemos algumas leituras ligadas à Análise do Discurso e suas pontes com o tema identidade na língua. Entendemos que para identidade há várias concepções, mas neste ponto de vista específico pode ser entendida como resultado de atos de criação lingüística, construída em contexto social e cultural. Ou seja, nas aulas de PLE, a ideia de relações identitárias se dá como resultado de atos da linguagem permeados por diferenças sociais e culturais manifestadas na interação alunos-professor. Assim, além de um evento interacional no qual os participantes realizam ações sociais ao comunicar, a aula de PLE é também um cenário multicultural em que professor e alunos de diversos países assumem papéis sociais e negociam diferentes identidades.
O projeto prossegue no próximo semestre (1/2011) e, com ele, o aprofundamento de análise das conversações já selecionadas, outras leituras e atividades.
Feitas as devidas apresentações do projeto e seus desdobramentos, posts mais voltados a debates estão a caminho. PARTICIPEM, leitores!!!
Bruna Crespo
SOMOS O OBSERVATÓRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA. PODEMOS COLABORAR? VISITE-NOS: http://observatorio-lp.sapo.pt
ResponderExcluirClaro, Francisco!
ResponderExcluirToda colaboração a este bolg será muito bem-vinda.
Conheço o site e gosto muito do trabalho de vocês!
Abraços.
Bruna, como provocação, pergunto: o que você destacaria como elemento recorrente das relações entre os alunos na aula de português para estrangeiros a que assistiu (e não foram poucas...) e como você pode relacionar isso á teoria já conhecida?
ResponderExcluirDenise, eu destacaria as indagações e debates provocados pelos alunos estrangeiros; na maioria das vezes, questões discrepantes ao tema principal da aula. De todas as aulas a que assisti (e,de fato, não foram poucas...), não me lembro de nenhuma que tenha ocorrido sem "interrupções" desse tipo. Era como se eles co-conduzissem as aulas manifestando seus interesses próprios através da língua, e isso variava conforme idade, sexo, nacionalidade, profissão... Uma possível relação com a teoria: o aprendizado de uma língua é também uma questão de identidade (identificar-se com), visto que o falante se interessa mais pelas palavras e usos que traduzem melhor seu universo. E nem sempre o material elaborado pelo professor abrange todas as diferenças culturais entre os alunos estrangeiros. Daí a recorrente impossibilidade de o professor de PLE conduzir as aulas conforme os padrões comuns a disciplinas lecionadas a nativos da língua. No ensino de PLE, não bastam livros, gramáticas e planejamentos para ensinar; isso são apenas suportes para estudo e materiais de consulta. É preciso também flexibilidade para lidar com diferentes culturas e temas emergentes em sala de aula. Porque se há diferenças identitárias, elas se refletem no interesse pela língua e, consequentemente, interferem no aprendizado.
ResponderExcluirRespondi sua pergunta, Denise?... Você concorda? Discorda? O que acrescentaria?
Eu concordo com você, Bruna! Pensando nessa questão da mumltiplicidade de tarefas do professor, que características tem de ter esse profissional para se adequar às circunstâncias?
ResponderExcluirDenise, acho que o bom professor de PLE deve, antes de qualquer medida pedagógica, livrar-se de estereótipos e ter repertório para conversar com diferentes tipos de pessoa. Em um ambiente de várias culturas, isso contribui para interações produtivas.
ResponderExcluirNo âmbito pedagógico, saber filtrar materiais de consulta (gramáticas, livros didáticos, etc) e elaborar atividades associadas a temas que estimulem o interesse da turma pelo idioma é fundamental. Eis aqui um grande desafio ao professor de PLE: identificar o perfil da turma (diferentes culturas, processos de aprendizagem, interesses, etc) e usar esse conhecimento a favor do ensino da língua portuguesa.
E vi com meus próprios olhos: em sala de aula, a prática disso tudo não é nada fácil!!! Só com muito trabalho e dedicação a longo prazo... Não é mesmo, Denise?
Bruna, acerca de seu comentário a respeito do conhecimento que o professor de PLE idealmente devesse ter, acredito que suas considerações exerçam um papel ímpar na base de atuação de qualquer professor, em qualquer área, já que é uma ocupação de extrema responsabilidade. Conhecer o(s) discente(s)é algo elementar, em meu ponto de vista, a fim de que o profissional possa exercer a desafiante e cativante tarefa de ensinar, não simplesmente repassar informações.
ResponderExcluirSaindo de um ponto de vista generalista para o da sala de aula de Português para estrangeiros, o desafio se tornaria cada vez maior. Ainda que o processo cognitivo de aquisição de uma segunda língua funcionasse da mesma maneira para os alunos, há a questão cultural fortemente ligada ao aprendizado da língua portuguesa, já que se deve considerar que suas línguas nativas fariam parte da cultura de cada um.
Daniel
Por outro lado, Daniel, é um desafio para o professor conhecer esse aluno. Em primeiro lugar, por conta do fato de que, no ambiente escolar, a interação tem por base regras bastante específicas, que privilegiamm o conteúdo a ser passado e que tornam professor e alunos portadores de iagens específicas que são instados a manter. Em segundo lugar, porque não parece haver um real interesse na modificação desse estado de coisas - os alunos continuam a se manter atentos apenas ao que fala o professor, ignorando a contribuição de colegas como de menor importância ou se esntindo pouco à vontade para fazê-lo...
ResponderExcluirConcordo com você, Daniel. O desafio de ensinar Português para estrangeiros, bem como qualquer outra disciplina, seria mais eficiente e agradável se os participantes (professores e alunos) se conhecessem mutuamente.
ResponderExcluirEntendo também a colocação da Denise. Talvez essa resistência (de ambas as partes - professores e alunos) a um ambiente mais interativo esteja ligada ao percurso histórico das tradicionais configurações escolares. Essa tradição, na qual o professor é designado a transmitir conhecimentos e o aluno a apenas retê-los, implica padrões de comportamento que não ocorrem só aos brasileiros. Culturalmente, muitos não foram educados para essa interação...